terça-feira, 27 de outubro de 2009

O Baile

Era dia de baile. A lua estava apontando no céu. Ele ainda não sabia com quem iria dançar, mas sabia que ela seria o par perfeito naquela noite.
Ela já estava praticamente pronta. Seu vestido era vinho, com pequenos detalhes feito à mão. Deixava sua cintura magnífica. Tinha o caimento ideal. Seu penteado foi escolhido especialmente para a forma de seu rosto. A maquiagem nunca ficou tão maravilhosa como naquele dia. Seus olhos só expressavam alegria, mas ela também não sabia com quem iria dançar. Não se importava. No fundo sentia que iria criar coragem e o chamaria para uma dança.
Ele chegou no salão um pouco cedo, pois não queria perder nenhuma bebida. Achava que era a única coisa que iria fazer em um baile, pois não tinha par e nem chamaria alguém para dançar. Ficou lá um tempo sozinho. Pensou no que beber. Já que era tudo por conta da casa arriscou em um bom uísque. Não sabia quando iria beber novamente.
Ela chegou um pouco mais tarde. Sua mãe estava indo fazer uma viagem, então se atrasou. Sua mãe muito apressada, nem reparou seu verstido. Apenas a deixou na porta. Quando entrou no salão, todos olharam. Ela estava mais que perfeita. Entrou sorrateiramente e pediu um vinho. Seus olhos naquele momento só expressavam ansiedade.
Desde o momento da entrada dela, ele não parava de pensar em seus olhos. No fundo, estava criando coragem para conversar com ela, mas ela foi menos tímida. Levantou da cadeira e foi em direção a ele. Naquele momento os olhos dele expressavam pânico. No meio do caminho um amigo a chamou para dançar, mas ela ignorou e continuou a andar. Cada passo dado era uma conquista.
Pronto, estava lá, um em frente o outro. Estáticos, mas ao mesmo tempo vibrantes. Ela apenas estendeu sua mão e ele a tocou. Era suave, tão macia e cheirava a morango. A mão dele era fina, com dedos grandes e cheirava a cigarro. Não falaram nada, apenas o olhar dizia tudo o que precisavam. A música começou a tocar. Era a melodia mais linda que eles já tinham escutado. Eles foram dançando, deixando a melodia os levar.
A noite passou rápido. Quando viram todos já tinham ido embora e eles ainda estavam lá, no meio do salão, e com a mesma disposição do início da noite. Lógico que estavam um pouco cansados, mas a alegria de terem dançado a noite inteira era muito mais contagiante que qualquer indisposição. A música parou, pois já era seis horas da manhã.
Ela não sabia para onde ir. Ele só queria leva-la para sua casa. Antes dele fazer qualquer convite, ela já estava na porta do salão o chamando para irem logo.
Chegaram. Ela pediu um copo d'agua, pois estavam cansada de tanto andar. Ele disse que não tinha água gelada, mas que iria providenciar. Ela gostou de tudo, e resolveu ali ficar. Ele não pensou duas vezes antes de convida-la para dançar. E ali, naquela casa, dançaram, dançaram e só o tempo os fará parar.

Ana Elisa Ferraz

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Tristeza

Tristeza tem um gosto amargo. Um gosto que é difícil de tirar de sua boa. Parece ter comido algo como pimenta, que você pode tentar tomar algo para passar aquela sensação ruim, mas nada realmente irá funcionar. Fica engolindo seco o tempo todo, tentando uma hora encontrar saliva para levar aquele amargo.
Tristeza tem um gosto salgado. Um gosto que vem dos olhos e chama-se lágrima. Parece ter entrado no mar e sem querer abriu a boca e seus lábios suavemente tocaram a água. Fica tentando cuspir o salgado de volta a água, mas ele não sai tão facilmente.
Pensando bem, tristeza não tem gosto de nada. É apenas um sentimento horrível que parece ser mais forte que muitos outros, e te preenche por inteiro em segundos. Você pode tentar fazer de tudo, beber, comer, engolir, cuspir, escarrar, mas nada vai arrancá-lo de você.
Tristeza, na verdade, não deveria existir.


“Tristeza, por favor vá embora
Minha alma que chora está vendo o meu fim
Tristeza, por favor vá embora
Minha alma que chora está vendo o meu fim

Fez do coração a sua moradia
Já é demais o meu penar
Quero voltar àquela vida de alegria
Quero de novo cantar” (Tristeza – Heitor dos Prazeres)


Ana Elisa Ferraz